O trauma nunca é apenas “mental”. Ele marca o corpo com sensações, altera ritmos, muda a forma como a pessoa se vê e como vê o mundo.
Durante uma experiência traumática, seja única e intensa ou uma vivência prolongada de violência, negligência, ameaças ou humilhações, o organismo entra em estado de alerta extremo, reagindo para sobreviver. O coração acelera, a respiração muda, os músculos se contraem, o sistema nervoso se organiza em torno da defesa. Essa resposta é necessária e o problema começa quando ela não consegue se desligar depois.
Após o trauma, muitas pessoas relatam que “algo ficou preso” no corpo. Mesmo quando o perigo real já passou, o organismo continua reagindo como se ainda estivesse em risco. Surgem dores sem causa clara, fadiga persistente, distúrbios do sono, problemas de estômago e intestino, tensão muscular constante, além de sintomas emocionais como irritabilidade, ansiedade, sensação de vazio ou entorpecimento.
Nem sempre há palavras para nomear a experiência. O trauma, então, se expressa por vias indiretas: pelo corpo, pelos comportamentos e pelas escolhas repetidas.
Compulsões
É nesse contexto que podem surgir as compulsões. Comer em excesso, beber, fumar, comprar compulsivamente, trabalhar sem parar, usar pornografia de forma repetitiva, praticar exercícios de maneira rígida, roer unhas, checar incessantemente o celular ou repetir determinados comportamentos não são atos aleatórios. Em muitos casos, funcionam como tentativas de aliviar a angústia, acalmar o corpo ou criar uma sensação momentânea de controle.
Durante o ato compulsivo, há um breve alívio da tensão interna, que logo se desfaz, dando lugar à culpa, vergonha, autocrítica e ao retorno da ansiedade.
Em situações traumáticas, especialmente aquelas em que a pessoa se sentiu impotente, invadida ou sem saída, o corpo deixa de ser vivido como um lugar seguro. Ele passa a ser percebido como fonte de ameaça, dor ou descontrole. Algumas pessoas se afastam das sensações corporais, anestesiam-se; outras tentam controlá-las rigidamente.
Tratamento
Por isso, tratar compulsões não é apenas buscar eliminá-las. O trabalho terapêutico envolve construir, pouco a pouco, novas formas de lidar com as emoções, ajudando a pessoa a reconhecer o que sente, compreender sua história e voltar a fazer escolhas com mais autonomia.
Quando o trauma começa a ser cuidado, a pessoa aprende, aos poucos, que o perigo passou. E, à medida que novas possibilidades se abrem, a compulsão deixa de ser a única saída.
É fundamental compreender as compulsões sem reduzi-las a falhas de caráter ou falta de controle. Perguntas como “por que a pessoa não para?” ou “por que continua fazendo isso?” costumam gerar mais distância do que compreensão.
Perguntas mais fecundas seriam:
- O que esse comportamento está tentando regular?
- Que angústia ele ajuda a suportar?
- Em que momento da história da pessoa ele se tornou necessário?
- O que aconteceria se essa compulsão simplesmente desaparecesse, sem que nada fosse colocado no lugar?
Essa mudança de olhar permite ver a compulsão não apenas como um problema a ser eliminado, mas como um sinal de sofrimento que precisa ser cuidado.
O trabalho clínico com pessoas que viveram traumas e desenvolveram comportamentos compulsivos não se resume a “retirar” o sintoma. Envolve, antes de tudo, a reconstrução de um senso mínimo de segurança no corpo, na relação terapêutica e na vida cotidiana.
Quando novas formas de lidar com a angústia se tornam possíveis, a compulsão perde sua função central. Ela deixa de ser a única saída.
Para quem sofre, essa compreensão pode ser o primeiro passo para sair do isolamento e da culpa. Para profissionais, é um convite a uma escuta mais ampla, que considere o corpo, a história e o contexto e não apenas o sintoma visível.
Cuidar do trauma é, em muitos sentidos, ajudar o corpo a aprender que o perigo passou. E esse aprendizado não acontece por imposição, mas por vínculo, tempo e presença.