Entre o cansaço e o limite

afogamento - ursinho

Vivemos um tempo em que o cansaço deixou de ser um sinal e passou a ser quase um requisito. Estar cansado tornou-se uma espécie de certificado silencioso de valor: quem está exausto, produziu; quem descansa, suspeita-se que falhou. Entre o cansaço e o limite, seguimos caminhando como se não houvesse escolha e, muitas vezes, nem percebemos quando o limite já foi ultrapassado.

 

Há concepções ideológicas que nos atravessam de forma tão profunda que raramente são questionadas. Uma delas é a ideia de que não fazer equivale a desperdício. Se você descansa se sente improdutivo. Pausar nem que por pouco tempo representa perder tempo. Silenciar seria ficar para trás. Mesmo quando não verbalizamos essas crenças, elas operam como um pano de fundo permanente que orienta nossas decisões, nossos julgamentos e, sobretudo, nossa relação conosco.

Essa lógica não se impõe apenas de fora para dentro. Ao contrário do que imaginamos, ela se instala no interior da experiência e se apresenta como se sempre estivesse lá. Passamos a nos vigiar, a nos cobrar, a nos pressionar. Tornamo-nos gestores de nós mesmos. A opressão já não precisa de um chefe explícito, de um relógio de ponto ou de uma ordem direta: ela se atualiza no diálogo interno que diz “eu deveria estar fazendo mais”, “não posso parar agora”, “descansar depois”. Assim, a exigência se transforma em autocontrole e o controle em autoviolência sutil.

Há, nesse movimento, uma promessa implícita: se eu produzir o suficiente, serei reconhecido. Se não pelos outros, ao menos por mim mesmo. O problema é que esse reconhecimento nunca chega de forma plena. O objetivo se desloca continuamente. O suficiente de hoje torna-se o mínimo de amanhã. E o descanso sempre adiado, quando finalmente acontece, passa a ser vivido com culpa.

Nesse cenário, o corpo costuma ser o primeiro a protestar. O cansaço aparece como sintoma, mas raramente é escutado. Ele é interpretado como falha individual, falta de organização, baixa performance. Pouco se pergunta: cansaço de quê? para quê? em nome de quem? A pergunta pelo sentido dá lugar à busca por estratégias de otimização — como se organizar melhor o tempo fosse, finalmente, a resposta.

Entre o cansaço e o limite, o que muitas vezes se perde é a experiência do próprio viver. A produtividade constante exige que o presente seja sempre meio, nunca fim. Vive-se para alcançar, para cumprir, para entregar. O tempo deixa de ser habitado e passa a ser utilizado. E, quando tudo é meio, o vazio se instala como consequência inevitável e a vida começa a parecer ser sem sentido.

Do ponto de vista existencial, talvez a questão não seja apenas aprender a descansar melhor, mas ousar questionar o imperativo da produtividade como valor absoluto. Perguntar-se se toda pausa precisa ser justificada. Se todo tempo precisa ser rentável. Se toda vida precisa provar, incessantemente, que merece existir.

Para algumas pessoas, sustentar essas perguntas não é simples — especialmente quando a lógica da produtividade ocupa todos os espaços. Em certos momentos, poder falar, com alguém que se disponha a escutar sem pressa e sem metas, pode ajudar a recolocar o sentido onde ele foi silenciado. Não como resposta pronta, mas como possibilidade de habitar o próprio limite.

Reconhecer o limite não é fracassar. É reencontrar a condição humana. É admitir que há um ritmo possível — e que ultrapassá-lo tem custos que não aparecem nas métricas de desempenho. O limite, quando escutado, pode ser não um obstáculo, mas um convite para rever prioridades, resgatar o sentido e recuperar a experiência de si.

Talvez o gesto mais radical, em um mundo que exige produção permanente, seja permitir-se não fazer. Não como abandono, mas como presença e não como desistência, mas como escolha. Entre o cansaço e o limite, pode existir um espaço de consciência — e é nele que a liberdade, ainda que pequena, começa a se esboçar.

 

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